Conflito Diplomático

  Jornalista Maria José Béchade

Depois que as autoridades brasileiras começaram a se mexer sobre as expulsões de brasileiros em viagem à Espanha, os noticiários espanhóis acordaram para mostrar os dois lados da moeda. Antes não aparecia nada sobre os turistas latino-americanos, africanos e de outras nacionalidades que ficam presos no aeroporto esperando dias para serem deportados aos seus países de origem. Agora, até mostram a “sala da humilhação”, como chamada de jornal impresso e divulgam reportagens completas com brasileiros e espanhóis falando dos constrangimentos que passaram ao retornar em seguida de uma longa viagem de avião ao seu país de origem.

 

Hoje até escrevi para um jornal on-line porque fiquei indignada com uma reportagem que falava de uma brasileira que queria sair do Brasil para a Espanha com o seu filho menor (espanhol com passaporte brasileiro) e foi impedida por não ter a autorização do pai e do juizado de menores, como se ela própria estivesse sendo constrangida em seu próprio país. Um exagero! Tenho três filhos e sei que essa lei existe há muitos anos e é positiva porque evita problemas que já presenciamos no Brasil e é corriqueiro aqui na Europa, que é o desaparecimento de crianças. A Europa deveria, sim, tomar como exemplo o Brasil e evitar os seqüestros de muitas crianças que estão hoje em mãos de rede de prostituição, de pedofilia, de negociadores de órgãos humanos e assassinos.

 

Por outro lado, há quem ainda não despertou, mas, o fato é que existe aí um conflito diplomático entre os dois países. Na primeira reportagem sobre o assunto, em um veículo televisivo da Espanha, o foco foi dado em cima dos turistas espanhóis que estavam sendo “rejeitados” pelo Brasil e apenas diziam que era uma represália às deportações de alguns brasileiros por parte da Espanha nos últimos meses.

 

Em seguida, o embaixador do Brasil na Espanha, José Viegas, aparece com uma calma e polidez que só um diplomata tem para dizer à população e autoridades espanholas que o Brasil está apenas cumprindo o que determina a lei, nada mais. Do outro lado, a diplomacia espanhola diz que não existe nada contra os brasileiros e que a polícia segue as normas determinadas pela União Européia. Duas atitudes diplomáticas para esconder em baixo do tapete o que no dia seguinte está dito pelo Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, depois de atender um telefonema da diplomacia espanhola: “Me telefonou para buscar uma solução. Interpreto como uma trégua, um esforço para reduzir o número de brasileiros impedidos de entrar na Espanha”, o que o jornal “Público” classificou de uma atitude para “evitar que a situação desemboque em uma crise diplomática”. A crise já existe e o pior é que alguns veículos de comunicação apostam pelo agravamento e mais constrangimento de brasileiros aqui na Espanha.